Para que serve um preço na curva?

02/06/2022 11:17:25

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Principais pontos da leitura

Nova regra de precificação da ANBIMA melhora a capacidade e decisão do investidor e cria oportunidade para aprimorar o serviço das plataformas de investimento.
Neste primeiro momento, os preços dos títulos devem ser apurados no mínimo mensalmente. Espero que muito brevemente vejamos o encurtamento deste prazo.
A regulação costuma criar oportunidades de negócio. Neste caso, a maior transparência em relação ao real saldo disponível para o cliente abre espaço para uma boa conversa, melhora o processo decisório do investidor e aproxima distribuidores de clientes.

A nova regra da ANBIMA obriga corretoras e distribuidoras, ou as plataformas de investimento, de modo mais abrangente, aderentes ao Código de Distribuição, a apurar valores de referência para debêntures, CRA, CRI e títulos públicos exceto aqueles negociados no Tesouro Direto. Resumindo, a partir de 02 de janeiro do próximo ano estes títulos deverão ser precificados a valores que reflitam as condições de mercado, aqueles valores pelos quais eles seriam efetivamente transacionados. Ou seja, marcados à mercado.

A regra permite exceções para alguns investidores como os qualificados, aqueles com mais de R$ 1 milhão em aplicações financeiras, desde que solicitado, e para alguns títulos como CDBs, mas não vale à pena entrar nestas miudezas.

Neste primeiro momento, os preços dos títulos devem ser apurados no mínimo mensalmente. Espero que muito brevemente vejamos o encurtamento deste prazo.

Os riscos de um título podem ser apurados pela variabilidade de seus preços. Durante o prazo em que o investidor está de posse do ativo, seus preços oscilam em função de diferentes fatores que afetam a percepção de valor dele. Não ter esta informação é não conhecer o risco.

As ações são um exemplo muito claro. Boa parte das ações no mercado brasileiro são negociadas no dia a dia. Várias ordens de compra e venda são executadas e um preço médio vai se formando ao longo do dia. Quanto mais negócios, mais os preços vão se aproximando e a média daí resultante pode ser considerada uma boa aproximação do preço de mercado.

Nosso mercado de renda fixa, porém, não tem esta mesma liquidez. Nos últimos anos o número de negócios diários aumentou bastante, mas até hoje não são tantos os títulos de renda fixa privados com bons volumes e números de negócios.

Vale destacar que, na ausência de mercados mais líquidos, a ANBIMA resolveu, anos atrás, investir em um processo diário de coleta de intenções de preço, dos próprios preços para negócios existentes, e no cálculo de estimativas de referência de mercado. Contudo, a ANBIMA não é capaz de calcular preços para todos os ativos e, em alguns casos, em mercados mais rasos, ainda é possível que as instituições utilizem modelos proprietários. No caso da nova regra, a utilização dos preços da ANBIMA é recomendada, não é obrigatória.

O fato de os distribuidores ainda hoje divulgarem para seus clientes os preços marcados na curva, ou seja, valores calculados como se as taxas de juros contratadas no momento da operação não se alterassem ao sabor do ambiente econômico cria uma informação que tem pouco valor para o cliente e pode induzi-lo a tomar decisões equivocadas. Aliás, na verdade, cria uma desinformação.

Os preços dos títulos de renda fixa variam fundamentalmente em função das condições do mercado, do seu prazo e da liquidez. Explico estes fatos em dois artigos: ‘Renda fixa não é tudo igual, atenção ao risco de crédito’ e ‘Os efeitos da taxa de juros e do prazo no valor dos títulos de renda fixa’.

As taxas de juros de um título respondem a economia e as suas condições específicas, como o risco de crédito. Considere o aumento de mais de 10% na taxa Selic nos últimos meses. Não faz sentido que o preço de um título comprado quando a taxa Selic era 2% a.a. seja vendido hoje, quando o mercado negocia por volta de 13% a.a, por um preço equivalente àquela taxa.

Informar preços calculados pela curva, implica que os clientes estão vendo saldos irreais em seus extratos. Quem comprou um título há 12 meses atrás está vendo em seu extrato um saldo maior do que de fato terá na conta se resolver vender o título. Nesta situação, talvez falte dinheiro para honrar algum compromisso.

Fundos de investimento marcam suas cotas a mercado, portanto, um investidor que está precisando de dinheiro, ao comparar uma cota que está andando meio de lado, até negativa, com um título que cresce como um reloginho, pode decidir equivocadamente se livrar do fundo.

Já ouvi de alguns profissionais de distribuição a história de que os investidores costumam ficar com os títulos até o final e, assim, seria melhor apresentar os valores pela curva para não criar uma tensão desnecessária para o cliente.

Não acho que faça sentido. A melhor informação é aquela que é fidedigna, útil e tempestiva. Um saldo que não será convertido naquele mesmo valor que vejo no extrato, não é fidedigno nem útil.

Para quem advoga esta tese, sugiro apresentar os dois valores para o cliente e, depois que ele entender direitinho o que eles significam, pergunte qual ele prefere.

A regulação costuma criar oportunidades de negócio. Neste caso, a maior transparência em relação ao real saldo disponível para o cliente abre espaço para uma boa conversa, melhora o processo decisório do investidor e aproxima distribuidores de clientes.

Para quem enxerga o relacionamento como a maior fonte de geração de valor, a oportunidade está batendo à porta.


Por Hudson Bessa / Sócio da HB Escola de Negócios | Coluna na Valor Investe

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