Filosofias de investimento adotadas no mercado

25/10/2021 22:08:01

7 min e 44 segundos

Principais pontos da leitura

Segundo a teoria desenvolvida por Eugene Fama, existem três níveis de eficiências de mercado e eles dependem da capacidade de incorporação das informações nos preços dos ativos.
Conhecer as diferentes filosofias de investimento, adotar uma para desenvolver sua estratégia de investimentos e depois colocá-la em prática de maneira consistente é fundamental.
É sempre importante frisar que não é porque uma estratégia funciona para um determinado investidor que ela necessariamente funcionará para você.

Para alguns, buscar pela discrepância entre preço e valor não é a melhor forma de explorar o mercado. Erros no funcionamento do mercado ou na precificação dos ativos podem ter diversas origens e, por isso, existem diversas filosofias de investimento que buscam explorar as oportunidades de maneiras distintas.

Antes de apresentar algumas das demais filosofias utilizadas, é preciso explicar brevemente o conceito de eficiência de mercado. Segundo a teoria desenvolvida por Eugene Fama, existem três níveis de eficiências de mercado e eles dependem da capacidade de incorporação das informações nos preços dos ativos.

No primeiro nível de eficiência (eficiência fraca), os preços dos ativos nos mercados refletem todas as informações públicas disponíveis historicamente. Já no nível de eficiência semiforte, além do preço dos ativos refletir todas as informações públicas disponíveis historicamente, ele também muda de forma instantânea para refletir novas informações. Por fim, um mercado com eficiência forte é aquele em que o preço dos ativos reflete todas as informações públicas e até as informações ocultas ou privilegiadas.

Entender o conceito de eficiência é importante, pois as filosofias apresentadas a seguir se baseiam na premissa de o mercado ser eficiente em algum (ou nenhum) desses três níveis de eficiência em relação às informações.

Análise Técnica

Os investidores que seguem essa filosofia acreditam que o mercado não é eficiente em nenhuma forma e que os preços, analisados por meio de gráficos e pelas informações sobre volume de transações das ações, podem seguir certos padrões, consequentemente, podem ter algum poder preditivo sobre preços futuros.

Algumas estratégias baseadas nessa filosofia se apoiam na premissa de que os investidores mudam de opinião coletivamente, causando choques na demanda e nos preços das ações, dessa forma, os padrões formados nos gráficos (como suportes, resistências ou preços em relação a médias móveis) podem prever essas mudanças.

Outras estratégias, conhecidas como momentum, utilizam índices de força relativa ou linhas de tendência e assumem que os mercados se ajustam lentamente e que os preços demoram para refletir novas informações, logo, seria possível surfar essas tendências.

Também há aqueles que acreditam em ciclos de longo prazo para os preços das ações e que norteiam a sua tomada de decisão pela fase do ciclo em que acreditam estar.

Traders de notícias

As informações afetam os preços das ações, isso é um fato que pode ser comprovado a cada movimento de mercado que ocorre como consequência de uma nova notícia sobre as empresas específicas ou sobre a economia em geral,  política e afins. Quando as companhias anunciam lucros maiores que o esperado, por exemplo, as ações costumam subir.

Dada essa realidade, investidores que têm acesso a alguma informação antes que ela se torne pública podem comprar/vender suas ações, a depender do teor da notícia. Acontece que uma informação que ainda não se tornou pública é definida como uma informação privilegiada e operar em cima dela é um crime.

Desse modo, quem busca operar as notícias tem três opções: apostar em rumores, esperar pela informação chegar e tentar lucrar com a reação do mercado ou usar as informações públicas para tentar antecipar futuros anúncios importantes, como fusões e aquisições, planos de investimentos ou de desinvestimento.

A diferença entre os traders de notícias e os investidores fundamentalistas é que os traders buscam lucrar com a reação do mercado a alguma nova informação, e não necessariamente com as oportunidades identificadas pela discrepância entre preço e valor das empresas.

Timing the Market

Nessa filosofia, os investidores não tentam acertar o que pode acontecer com ações específicas, mas sim com o mercado como um todo. Em teoria, os retornos que podem ser obtidos ao comprar na baixa e vender na alta são excepcionais.

A grande dificuldade aqui é acertar os movimentos do mercado como um todo de maneira consistente. Mesmo utilizando indicadores técnicos, acompanhando variáveis macroeconômicas ou até acompanhando o sentimento geral no mundo das redes sociais (como geralmente é feito), é algo praticamente impossível.

Esses investidores geralmente utilizam derivativos como futuros e opções de índice ou por meio de ETFs (fundos que replicam índices, como o IBOV, por exemplo) para colocar suas estratégias em prática.

No fim das contas, vai ser a intuição desse investidor que vai dizer a ele quando comprar ou vender. Inclusive, é normal que todo tipo de investidor naturalmente faça isso em sua carteira quando decide ter mais ou menos ações em seu portfólio, de acordo com o que está sentindo no momento, por exemplo.

Se para análise técnica não existe muita evidência estática de sucesso, quando o assunto é market timing, as evidências de sucesso são praticamente nulas.

Arbitragem

A ideia aqui é investir sem assumir nenhum risco e sair com retornos garantidos. No passado, quando as informações não eram amplamente disseminadas, até era possível obter resultados consistentes fazendo isso; hoje em dia, as oportunidades são bem escassas, e quem utiliza essa filosofia costuma operar via robôs para aproveitar oportunidades que surgem e desaparecem em questão de segundos.

Existem três tipos de estratégias de arbitragem:

A pura é aquela que identifica dois ativos com fluxos de caixas futuros idênticos sendo negociados em mercados diferentes, a preços diferentes (geralmente feita com derivativos ou alguns títulos de renda fixa), tendo a certeza de que esses preços vão convergir.

O segundo tipo de arbitragem, a quase pura, é basicamente a mesma coisa, mas os ativos, apesar de terem fluxos de caixas equivalentes, não são exatamente os mesmos e, dessa forma, não há a certeza de que os preços vão convergir.

Por fim, existe a arbitragem especulativa, que na verdade nem poderia ser considerada uma arbitragem, pois os investidores fazem negócios com pares de ativos similares, comprando o mais barato e vendendo o caro. Se eles estiverem certos, a diferença vai ser reduzida ao longo do tempo e resultará em lucro.

É o que conhecemos como a estratégia Long and Short, por exemplo. Ela pode ser feita comprando e vendendo diferentes classes de um mesmo ativo (ITUB3-ITUB4, por exemplo) ou ativos do mesmo setor, quando a relação entre eles diverge da historicamente observada (ITUB-ITSA ou ITUB-BBDC, por exemplo).

A evidência estatística também mostra que essas estratégias geram retornos ponderados pelos riscos menores do que as estratégias fundamentalistas.

Investindo em índices

Já para aqueles totalmente desacreditados na capacidade da gestão ativa gerar retornos superiores aos de mercado, existe o investimento passivo. Nessa filosofia, os investidores geralmente compram apenas ETFs, e a ideia é abrir mão do potencial retorno superior, mas ganhar com baixos custos de transação e reduzir o risco por meio da elevada diversificação.

De fato, a capacidade de geração de alpha (retorno acima do mercado) dos gestores institucionais de ativos tem sido bastante questionada nas últimas décadas, especialmente em mercados mais desenvolvidos. O próprio Buffett recomenda às pessoas que não têm tempo/disposição para estudar e escolher suas próprias ações a compra de ETFs no lugar.

Controle o seu destino

Conhecer as diferentes filosofias de investimento, adotar uma para desenvolver sua estratégia de investimentos e depois colocá-la em prática de maneira consistente é fundamental.

É sempre importante frisar que não é porque uma estratégia funciona para um determinado investidor que ela necessariamente funcionará para você.

É preciso levar em conta seu patrimônio atual e seus objetivos, seu horizonte de investimentos, sua tolerância e apetite ao risco, além de outros traços da sua personalidade e características pessoais, que podem influenciar a sua tomada de decisão em relação aos seus investimentos, como paciência e disponibilidade/interesse em estudar/acompanhar o mercado, por exemplo.

O ponto é que, se você possui uma definição clara sobre a filosofia de investimentos que vai adotar, você terá um controle muito maior sobre o seu destino. Você será capaz não só de rejeitar aquilo que não está de acordo com a sua visão, mas também de ajustar adequadamente sua estratégia às suas necessidades.


Por Rafael Ragazi / Nord Insights

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