Queridinhas: 20 ações concentram mais da metade dos investimentos em Bolsa

Fonte: 6 Minutos

Que o mercado de capitais vem avançando no Brasil, não há dúvidas. Mas dados do perfil de alocação em ações por parte de fundos de investimento mostram o quanto esse universo ainda é restrito no país. Dos quase R$ 500 bilhões de recursos aplicados em Bolsa pelos gestores, mais da metade (51,4%) está concentrada em apenas 20 papéis.

É o que mostram dados levantados a pedido do 6 Minutos pela consultoria de informações financeiras Comdinheiro, referentes a fevereiro deste ano, último dado disponível. Esse foco em poucos papéis não é uma particularidade de 2021: no mesmo mês do ano passado, essa concentração era um pouco menor (47,5%), mas ainda elevada.

“A bolsa brasileira ainda é pequena, há cerca de 300 papéis com liquidez recorrente”, explica Filipe Ferreira, diretor de investimentos da empresa. “E alguns deles entraram recentemente, ainda não se provaram, por assim dizer”.

Ele explica ainda que há poucas opções com volume suficiente em Bolsa para dar conta do apetite de fundos grandes. “Se o Fundo Verde for comprar 1% do seu patrimônio em uma ação, já dá R$ 1 bilhão”, exemplifica. “As vezes, as empresas não têm volume negociado suficiente mesmo. Isso tudo acaba pesando para a concentração”.

AS AÇÕES QUERIDINHAS DOS GESTORES DE FUNDO  
EmpresaSoma dos valores alocados pelos fundos em cada empresa (em R$ bi)Participação no total alocado pelos fundos em ações (em %)
Vale50,6910,26
Rede Dor São Luis22,104,47
Natura18,443,73
Petrobras15,793,19
B315,613,16
Suzano15,533,14
Notre Dame12,502,53
Eneva12,162,46
Itaú10,372,09
Localiza9,902
BTG Pactual9,021,82
Equatorial8,891,80
Magazine Luiza8,701,76
Bradesco7,751,56
Petrobras7,361,49
M Dias Branco6,451,30
Via Varejo6,221,26
Renner5,651,14
Rumo5,591,13
PetroRio5,211,05
Fonte: Comdinheiro

Rodrigo Knudsen, gestor da Vitreo, avalia que parte dos fundos acabam se influenciando mutuamente na hora de escolher suas carteiras.

“É claro que no Brasil não tem tanta opção como nos Estados Unidos, onde há 2 mil ações com liquidez”, pondera. “Mas a verdade é que alguns gestores acabam tendo as mesmas ideias, e se influenciam uns aos outros. É por isso que alguns até evitam contato com outros gestores. O Warren Buffet, por exemplo, mora em Washington, e não em Wall Street”.

Além disso, ele lembra que fundos maiores, de grandes bancos, acabam tendo como meta o Ibovespa. Ações mais relevantes no principal índice brasileiro, portanto, acabam naturalmente aparecendo na lista das 20 mais queridinhas dos gestores.

Da Vale e Petrobras…

Vale é a rainha incontestável dos gestores, respondendo por 10,2% do total aplicado no final de fevereiro deste ano, segundo o levantamento. Há um ano, a mineradora ainda era a preferida dos fundos, mas respondia por uma fatia bem menor dos recursos, 5,2%.

“Mesmo se os gestores não tivessem tomado nenhuma decisão em relação à Vale, ela já teria aumentado muito sua participação na alocação de recursos, porque se valorizou muito de um ano para cá”, aponta Ferreira, da Comdinheiro, lembrando que a gigante da mineração subiu mais de 150% do final de fevereiro de 2020 para cá.

Na outra ponta, estatais como PetrobrasBanco do Brasil e Eletrobrás perderam parte do prestígio que possuíam no coração dos gestores após sinais claros de interferência do governo nessas empresas.

A Petrobras, especificamente, possuía em fevereiro 4,6% de participação na alocação de fundos em Bolsa, bem abaixo dos 7,7% registrados no mesmo mês do ano passado. “O petróleo subiu. Mas entre as 20 ações com maior alocação dos fundos, você nota uma empresa que não tinha antes, que é a PetroRio. Pode ter tido alguma migração dos gestores da Petrobras para a PetroRio”, aponta Knudsen.

Banco do Brasil, que estava na lista das 20 ações queridinhas de 2020, acabou sumindo do ranking deste ano, assim como a Eletrobras e a BR Distribuidora. “Acho que isso é reflexo de uma empolgação menor do mercado com esse governo”, avalia Knudsen. “O que acaba acontecendo é que os gestores buscam outras opções no setor. Saiu o Banco do Brasil da lista das 20 ações com maior alocação, entrou o BTG”, aponta.

…à Natura e Magalu

Quem ganha cada vez mais interesse dos investidores é a Natura, que no ano passado respondia por 2,3% de todos os recursos de fundos, e agora passou para 3,7%. A explicação para a ação ser quase uma unanimidade na carteira dos gestores é simples.

“A Natura oferece ESG [sigla em inglês que expressa boas práticas ambientais, sociais e de governança] com rentabilidade”, resume Ferreira, da Comdinheiro. “É uma empresa que é muito querida do mercado, e que fez um IPO [abertura de capital] pedido mais pelo mercado do que pela própria família”.

Outro caso de queridinha habitual é a Magazine Luiza, que aparece no ranking do ano passado e também no desse ano, com uma fatia de 1,76% dos recursos alocados. “Magalu é uma empresa que gostamos”, diz Knudsen. “As ações tiveram uma queda durante a pandemia, mas se recuperaram”, aponta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *