O susto da inflação americana

Fonte: Levante Investimentos

A inflação americana de abril, medida pelo índice de preços ao consumidor (Consumer Price Index, CPI), surpreendeu negativamente os investidores. O CPI indicou uma alta de 0,8 por cento em abril, muito acima do 0,2 por cento que era o consenso do mercado, e superior aos 0,6 por cento registrados em março. A taxa de inflação acumulada em 12 meses subiu para 4,2 por cento, superando as projeções, que eram de 3,6 por cento. O núcleo da inflação, o chamado “core inflation”, que não considera os preços voláteis dos alimentos e da energia, também subiu para 3,0 por cento, ante 1,6 por cento do mês anterior. O indicador foi divulgado na manhã desta quarta-feira (12) pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), e deve ser mais um indicador a agitar o mercado. Apesar de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), vir reiterando que as autoridades monetárias americanas serão complacentes com a inflação para não atalhar a recuperação econômica, os sinais são de que as distorções nos preços e no mercado de trabalho podem exigir uma ação antes do prazo.

A inflação é apenas uma das distorções a ser corrigidas. Os indicadores mais recentes da economia americana mostram um momento de indefinição e transição. Não é exagero dizer que a situação é inédita. É possível dizer que as medidas orquestradas pelo Fed e Tesouro para impedir uma catástrofe na economia deram certo. Por meio de uma injeção de recursos sem precedentes na economia, além de pacotes de estímulo econômico e benefícios diretos aos americanos, as autoridades conseguiram evitar o pior. O Produto Interno Bruto (PIB) americano encolheu 2,3 por cento no ano passado, mas isso foi algo pontual. A perspectiva é de um avanço de 6,2 por cento a 6,5 por cento neste ano, mais do que compensando a retração de 2020. No entanto, para fazermos um paralelo médico, os medicamentos econômicos usados foram suficientes para garantir a recuperação rápida do paciente, mas vêm provocando alguns efeitos colaterais que devem demorar para ser corrigidos.

Além da alta de preços, há problemas no mercado de trabalho. Na sexta-feira (07), o Departamento de Trabalho anunciou a criação de 266 mil vagas em abril, muito abaixo do esperado, que estava perto de um milhão de empregos criados. Indicação de emprego fraco. A taxa de desemprego também subiu. Chegou a 6,1 por cento em abril, ante 6,0 por cento em março. No entanto, na terça-feira (11), o relatório americano Jolts, que mostra o número de vagas em aberto, indicou a abertura de 597 mil postos de trabalho em março. Com isso, o número de vagas em aberto chegou a 8,1 milhões, o maior nível desde que a série começou a ser calculada, no ano 2000.

Como explicar a aparente contradição entre muitas vagas em aberto e poucos empregos criados? Esse é apenas um aspecto do ineditismo da situação. Nos últimos meses, as famílias americanas têm recebido benefícios. Para muitos trabalhadores na base da pirâmide, é mais negócio viver do benefício do que procurar emprego. Assim, enquanto durar o benefício, haverá menos pessoas dispostas a procurar emprego. E a concessão de benefícios pode durar bastante tempo. Lá como cá, é extremamente impopular para um político defender o fim de um benefício social.

E são distorções como a inflação e o mercado de trabalho que podem provocar uma severa correção nos preços das ações americanas, com reflexos sobre os demais pregões ao redor do mundo. Os juros já se agitaram. No começo da manhã, a taxa dos títulos referenciais de dez anos do Tesouro americano subiu para 1,648 por cento ao ano, forte avanço em relação à véspera.

INDICADORES – O volume de serviços caiu 4,0 por cento em março em relação a fevereiro, considerando os dados com ajuste sazonal. Na série sem ajuste sazonal, frente a março de 2020, o volume de serviços avançou 4,5 por cento, após doze taxas negativas seguidas nesta comparação. No acumulado do ano, o volume de serviços recuou 0,8 por cento frente a igual período de 2020, quinta queda consecutiva nas comparações trimestrais. As informações são da Pesquisa Mensal de Serviços, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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