Criptomoedas: o que você sabe sobre o dinheiro do futuro?

Por Danilo Cesar / CFP – Analista de Investimento Sênior na Néos Previdência Complementar

PUBLICADO COM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR

Suspeito seriamente que você já tenha ouvido falar em criptomoedas, ou, pelo menos, na mais famosa delas, o Bitcoin. Mas afinal, o que é isso?

Antes de explicar o que são e como funcionam as “criptos”, vamos mergulhar um pouquinho na história.

A “brincadeira” envolvendo sistemas de validação de transações online começou por volta dos anos 80, mas foi a partir de 1998 que começaram a surgir os primeiros protocolos e projetos de moedas digitais, embora “ninguém” prestasse atenção a essas invenções. Entretanto, foi a partir de 2008, logo após o estouro da bolha subprime nos EUA, que a coisa começou a mudar.

Um indivíduo, usando o apelido de Satoshi Nakamoto, publicou um artigo que deu origem ao que viria ser o primeiro bitcoin (a moeda digital mais importante de todas, atualmente); a ideia era permitir que as transações financeiras fossem feitas diretamente, de pessoa para pessoa (peer to peer), sem a necessidade de um intermediador – como um banco central, por exemplo; ou seja, cada pessoa seria seu próprio banco.  

Até hoje ninguém sabe quem é esse tal de Satoshi Nakamoto – nem mesmo se é uma pessoa ou um grupo –, mas o fato é que depois de passar um tempo no “submundo da internet” (deep web), sendo utilizado apenas por aficionados por tecnologia e outros indivíduos com interesses não tão nobres, o Bitcoin foi ganhando popularidade até atingir o status de “ouro digital”, atraindo milhões de investidores e se valorizando exponencialmente, saindo da casa dos centavos de dólar no seu lançamento, para os mais de US$ 50.000,00 atuais – é isso mesmo, o bagulho é em dólar.

Depois do sucesso do Bitcoin (BTC), foram surgindo outras moedas digitais na sua ponga, as quais passaram a ser chamadas de altcoins. Resumo da ópera: se não for Bitcoin, seja lá o que for, é uma altcoin.  

Agora que você já conhece o babado, sem mais delongas, vou tentar explicar o que, afinal, é uma “cripto”. Vem comigo!  

Como o próprio nome sugere, uma criptomoeda é justamente uma moeda, quer dizer, uma forma de dinheiro, como o Real, o Dólar ou o Euro. A diferença é que não é uma moeda física (não tem papel nem metal); é totalmente digital, gerada e transacionada através da internet.

Ah, e diferente das moedas tradicionais, ela não é emitida por nenhum governo, tampouco precisa de intermediários para ser negociada; você pode transferir o seu saldo para qualquer outra pessoa ou empresa, sem que nenhum banco meta o bedelho ou fique xeretando.

Assim como qualquer forma de dinheiro fiduciário (dinheiro oficial, ou dinheiro que você “bota fé”, já que é desta palavra que se origina o termo), as criptomoedas foram criadas com a finalidade de atender as três principais funções de qualquer outra moeda: a) servir como meio de troca, isto é, para comprar produtos ou serviços; b) unidade de conta, quando o preço das coisas é baseado nela; c) reserva de valor (investimento, preservação do poder de compra).

Atualmente, as criptomoedas, são utilizadas principalmente como reserva de valor, ou seja, como um ativo financeiro, uma forma de investimento. Em relação às demais finalidades, o principal problema é a volatilidade das criptos, pois o sobe e desce diário das suas cotações inibe sua utilização para precificação de produtos e transações comerciais. No entanto, o Bitcoin pouco a pouco vem ganhando espaço, passando a ser aceito por mais empresas.

Do ponto de vista operacional, apesar de não precisar de intermediários, como as moedas tradicionais, o processo de validação das operações envolvendo criptomoedas é bastante complexo, uma vez que todas as transações são criptografadas (é isso aí, é daí que vem a expressão “cripto”), isto é, protegidas por protocolos avançados, extremamente seguros.

O grande segredo por traz da segurança e confiabilidade das transações envolvendo as moedas digitais é uma tecnologia conhecida como blockchain, que, de forma simplificada, trata-se de um sistema de registro de transações, um banco de dados público, teoricamente ilimitado, onde consta o histórico de todas as operações realizadas com cada criptomoeda; graças ao blockchain, é impossível utilizar a mesma unidade de moeda duas vezes, logo, é impossível fraudar uma transação.

Assim como o Bitcoin, a maioria das criptos utiliza essa tecnologia, que, a propósito, também pode ser usada para diversas outras finalidades, desde gestão de cadeia de suprimentos a reconhecimento de autenticidade de obras de arte. Aliás, o termo “bitcoin” pode se referir, tanto à moeda digital (grafado com letra minúscula), quanto ao protocolo (com letra maiúscula), isto é, o conjunto de regras, que define como os valores são transacionados.

Mas quem faz o registro das transações neste sistema? Aqui entra o trabalho dos mineradores, que são responsáveis por validar e processar as operações realizadas com as criptomoedas e registrá-las no blockchain. Em troca disso, são remunerados com novas unidades dessas mesmas criptos. No caso do Bitcoin, por exemplo, os mineradores precisam utilizar milhares de computadores para resolver problemas matemáticos complexos, que verificam a validade das transações incluídas no blockchain, e a cada vez que executam essa tarefa, recebem novos bitcoins.

O papel dos mineradores é fundamental, pois é através da mineração que são geradas novas unidades de moedas digitais. Contudo, para evitar que haja uma criação exagerada de novas unidades, o que poderia resultar em um excesso de oferta e, consequentemente, em uma desvalorização das moedas, o próprio sistema possui um mecanismo de ajuste: à medida que mais computadores são utilizados e a capacidade de processamento aumenta, os problemas matemáticos para validação das transações vão ficando mais complexos, o que limita a mineração e, por conseguinte, a criação de novas moedas. Em outras palavras, quanto mais o tempo passa, mais seguro o Bitcoin se torna.

Neste quesito, o Bitcoin ainda possui um “mecanismo adicional de defesa”: ele foi programado para simular a extração de um metal precioso, isto é, ele possui uma quantidade finita de moedas, mais especificamente, 21 milhões de unidades. Desse modo, à medida que mais pessoas e empresas passam a comprá-lo, ele se torna mais escasso e valioso.

Como se não fosse o bastante, para aumentar ainda mais a escassez do Bitcoin, ele foi programado para reduzir a emissão de moedas a cada 210 mil blocos minerados; este processo é chamado de halving, e costuma acontecer a cada quatro anos.

Toda vez que acontece o halving, o prêmio ofertado aos mineradores é reduzido pela metade, o que diminui a oferta do BTC, elevando ainda mais a sua demanda. Este mecanismo, associado ao número finito de unidades, faz com que o BTC se torne um ativo inflacionário, ou seja, que tende a subir à medida que mais transações aconteçam, devido à sua escassez. É por isso que ele ganhou a alcunha de “ouro digital”, pois assim como o metal dourado, quanto maior a demanda, maior será o seu preço, haja vista que a oferta é limitada e decrescente.

Em relação aos preços das criptos, eles variam diariamente, segundo a lei da oferta e demanda; o BTC, apesar de ser bastante volátil, já possui uma liquidez elevada, mas no caso de moedas menos expressivas, que tem menor circulação, poucas operações podem causar um impacto significativo nas cotações.

Por falar em cotações, as criptomoedas, diferentemente dos ativos tradicionais, não possuem horário limite para movimentação; podem ser negociadas a qualquer dia e horário, inclusive nos finais de semana e feriados; elas também não precisam ser negociadas em valores inteiros, podendo ser transacionadas em frações de unidade – o Bitcoin, por exemplo, pode ser “quebrado” em 100 milhões de unidades.

Como mencionei, as operações de compra e venda podem ser realizadas diretamente entre os usuários (transações peer-to-peer, ou P2P). Contudo, com o crescente interesse em torno das criptos e, principalmente, com o aumento do número de usuários transacionando moedas digitais, surgiram as exchanges, que funcionam como uma espécie de corretora, reunindo compradores e vendedores em um ambiente virtual.

Hoje em dia, para negociar moedas digitais basta abrir uma conta em uma delas. E a tendência é que esse processo se torne ainda mais simples com o passar do tempo, uma vez que a cada dia surgem novas iniciativas, como a conta digital da Uzzo Pay, por exemplo, que permite que os correntistas comprem, vendam e convertam BTC para Reais, ou vice-versa.

Mas é preciso ficar atento, pois cada Exchange possui regras e preços diferentes, já que as negociações são realizadas entre os seus próprios clientes. Por isso é importante pesquisar com cuidado e entender as regras antes de decidir abrir a sua conta.

Sem dúvida, as exchanges são uma “mão na roda” para negociar criptos, sobretudo para os investidores iniciantes. Contudo, elas são um alvo suculento para hackers, por conta do grande volume que negociam. Desse modo, não é recomendável deixar grandes quantias custodiadas (guardadas) nestas corretoras, deixando na “mão delas” o acesso aos seus ativos digitais, por mais conveniente que seja.

Neste caso, a forma mais segura de guardar os ativos é consigo mesmo – ou seja, sendo você o seu próprio “banco”. Você pode fazer isso cadastrando chaves privadas que dão acesso ao blockchain onde consta o registro do saldo dos seus criptoativos. Pra falar verdade, não há como guardar os ativos digitais de fato, o que você vai guardar são as suas chaves privadas, mas sem elas, ninguém conseguir acessar os seus ativos.

Uma vez criadas as chaves privadas, existem diversas formas de armazená-las, que variam em termos de segurança, usabilidade e praticidade. A maneira mais simples e prática é deixá-la em uma Exchange, mas, como mencionei, devido as tentativas de ataques dos hackers, esta não é a melhor opção em termos de segurança.

Uma alternativa mais segura e interessante é armazenar as chaves em uma wallet ou carteira – que a bem da verdade poderia ser chamada de “chaveiro”, pois, como mencionei, a wallet não armazena os ativos, e sim as chaves – vai entender.

Existem diversos tipos de wallets, entre as chamadas hardwallets, que são dispositivos parecidos como um pendrive, nos quais as chaves podem ser armazenadas, e as software wallets, que são aplicativos de celulares ou sites que se conectam com o blockchain. Apesar das hardwallets serem mais seguras, as software wallets são mais utilizadas, por conta da sua maior praticidade.  

Aliás, é preciso ter bastante cuidado antes de começar a operar com criptomoedas, por mais ansioso que esteja.

Eu sei, eu sei, as criptos são o assunto do momento, e não é para menos: o mercado de “ativos digitais” cresceu muito nos últimos anos: são mais de nove mil criptomoedas, que somadas possuem uma capitalização de mercado superior a US$ 1,8 trilhão – sendo que o Bitcoin ainda é responsável por cerca de 60% desse volume.

Apesar desse “cardápio recheado”, a grande maioria das criptomoedas não é confiável e a tendência é que elas fiquem pelo caminho, até porque, como a maioria dos projetos nesse mercado ainda é jovem, há inúmeras incertezas sobre o futuro de cada um deles. Além disso, a volatilidade desses ativos é surreal, podendo ir do céu ao inferno em questão de horas, sem sequer passar pelo purgatório.

Por outro lado, estas moedas digitais possuem uma grande capacidade de multiplicação, de modo que mesmo um investimento pequeno tem potencial para gerar um retorno gigantesco. Em termos mais técnicos, isso é o que podemos chamar de assimetria positiva, pois enquanto o máximo que você pode perder é 100% (a menos que você se alavanque, quer dizer, invista mais do que tem, o que, já vou avisando, não recomendo), o ganho potencial é ilimitado.

E é graças a essa assimetria positiva que você pode investir neste mercado de forma bastante segura, ainda que o negócio em si seja bastante arriscado. Como assim? Doido, né? Explico.

A não ser que você seja um especialista em criptomoedas, ou enquanto não se torna um, o segredo para investir nesse mercado e dormir tranquilo é colocar pouco dinheiro, uma quantia que não vai lhe fazer falta. Algo entre 1% e 3% da sua carteira já está de bom tamanho.

Em relação aos ativos, o Bitcoin ainda é a estrela da parada, e, obviamente, um suspeito óbvio para você iniciar a sua jornada no mundo cripto. Mas existem diversos outros ativos promissores no mercado, como Etherium (ETH), Binance (BNB), Cardano (ADA), Ripple (XRP) etc.

Muitas dessas altcoins, inclusive, apresentam propostas tecnológicas que vão além das suas respectivas moedas, desenvolvendo soluções financeiras experimentais baseadas em contratos inteligentes que utilizam a tecnologia blockchain, e que não necessitam de intermediários financeiros como bancos, corretoras ou, até mesmo, exchanges. Esse movimento – iniciado com o protocolo Ethereum – é conhecido como DeFI (decentralized finance, ou finanças descentralizadas, em português).

Ah, e é importante ressaltar que os criptoativos não estão restritos as criptomoedas, é preciso considerar também as criptocommodities e os criptotokens, sobretudo o NFT (Non-Fungible Token), que tem se tornou uma febre nos últimos meses.     

Contudo, sugiro que antes de sair comprando uma moeda digital qualquer, pesquise a sua proposta, os seus prós e os seus contras. Não adianta “se jogar de qualquer altura”. Como em todo investimento, para se dar bem nesse mercado, você precisará estudar e praticar, e, ainda assim, os erros serão inevitáveis. Por isso recomendo que coloque pouca grana, ou seja, que “erre pequeno”.

Se quiser “participar da onda” e não tiver tempo, ou mesmo se não estiver a fim, de estudar (é complexo pra caralho, não se engane), a melhor opção é aplicar em um fundo de investimento – recentemente, inclusive, foi lançado o primeiro ETF de criptoativos na B3. Mas, por favor, não se jogue de cabeça sem saber nada. Esse mercado, por incrível que pareça, não é para aventureiros.

Feitas as devidas ressalvas, sugiro realmente que pesquise mais sobre as criptomoedas (e sobre os demais criptoativos). É possível que o “dinheiro da internet” seja apenas uma onda passageira, mas também é possível que seja a fagulha de uma grande revolução no sistema financeiro mundial.

É claro que os governos não estão achando graça dessa “palhaçada” e vão fazer todo o possível para estragar a festa, afinal, eles não estão nem um pouco interessados em deixar de bisbilhotar a sua vida e levar um pedaço – cada vez maior – dos seus rendimentos. Então, se as criptos realmente prosperarem e passarem a incomodar, eles vão endurecer o jogo.

Contudo, por mais insano que pareça (e parece mesmo), dado o andar da carruagem do avanço tecnológico pelo qual estamos passando, pode ser que a “internet do dinheiro” seja o trem – ou melhor, a nave – do futuro. E se for a nave do futuro mesmo, chegar atrasado vai sair caro pra caramba; e o pior de tudo, é que talvez você não possa comprar a passagem para embarcar nesta nave com os reais ou dólares que você tem no bolso – ou na conta – neste exato momento.

No momento em que escrevo a maior parte dos mercados globais está operando em alta, influenciados pela aprovação do pacote de estímulos americano de US$ 1,9 trilhão.

A expectativa dos investidores é que este novo pacote, aliado ao avanço da vacinação no mundo, resulte em uma recuperação vigorosa da economia mundial.

O efeito colateral desse movimento é que a inflação tende a acelerar nos próximos meses, levando a um aumento da taxa de juros americana, que, por ser a grande referência mundial para o custo do dinheiro, tende a influenciar as taxas de juros em outros países mundo afora.

Quando a taxa de juros das treasuries (como são chamados os títulos públicos dos EUA) sobe, a atratividade de outros investimentos diminui, sobretudo das ações de empresas de alto crescimento, haja vista que costumam operar de forma alavancada e a elevação nos juros aumenta o seu custo.

Outro fator de ajuste mais técnico, é que as ações são precificadas com base nos seus fluxos futuros de receita. Grosso modo, esses fluxos futuros são trazidos a valor presente pela taxa de juros vigente, se a taxa de juros sobe, o denominador dessa equação aumenta, o que reduz o valor presente das ações.

Esse movimento levou a uma desvalorização das ações de tecnologia nos últimos dias. Mas é bom lembrar essas ações foram as grandes vencedoras de 2020, e algumas mais do que dobraram de valor, então, é natural e fundamental que esse movimento de reversão aconteça.

Contudo, apesar desses fatores, o aumento da taxa de juros americana, desde que não seja muito acentuado, é mais do que bem-vindo, pois é uma sinalização clara de que a atividade econômica está se recuperando.

Um cenário de economia mundial em crescimento com elevação da taxa de juros é muito melhor do que um cenário de depressão mundial, com taxas próximas ou abaixo de zero, até porque esse nível de taxa de juros é uma excrescência e não o normal.

Neste momento, inclusive, depois de uma correção saudável, as empresas de tecnologia voltam a se valorizar lá fora, diante da visão de que a taxa de juros continuará em patamares historicamente baixos.

Resumindo, a elevação gradativa da taxa de juros é saudável e indica que o mundo está voltando aos trilhos.

O melhor de tudo, é que momentos de crescimento mundial acentuado são formidáveis para países emergentes, haja vista que um mundo aquecido demanda mais commodities, especialidade da maioria dos emergentes, sobretudo o Brasil, o grande quintal do mundo.

Diante desse quadro promissor, o Brasil deveria estar voando, ou pelo menos se preparando para decolar, não é mesmo? É, deveria…, mas….

Como diria Roberto Campos (não o do Bacen, o avô), “o Brasil nunca perde uma oportunidade de perder oportunidades”.

Na contramão do mundo, a crise da Covid-19 só faz aumentar, a vacinação caminha a passos de tartaruga com sono, as reformas estruturais e as privatizações não caminham, o vai e vem de cadeiras nas empresas estatais não acaba nunca, a insegurança jurídica e tributária é a regra, as decisões do judiciário continuam sendo uma caixa preta cheia de surpresas e a política, como se fosse possível, está pior do que nunca. Enfim, o país está uma zona.

O resultado disso é que o famigerado “risco Brasil” foi para estratosfera. O gringo cansou do país e está levando suas empresas e seu dinheiro para bem longe – em alguns casos para bem perto, logo ali na Argentina. O dólar, que cai em quase todo o mundo, está nas alturas no Brasil e não demorará para influenciar ainda mais a já crescente inflação.

Todo esse pandemônio tem feito os ativos de risco brasileiro chacoalhar. A bolsa está derretendo e a renda fixa sobe e desce sem parar, o que tem feito muitos investidores perderem o sono, principalmente os novatos, que abraçaram a bolsa com vontade depois que a taxa Selic foi para o chão.

Tenho acompanhado tudo isso, até porque faz parte da minha área de atuação, mas confesso que apesar de preocupado com o futuro do país, não estou nem um pouco nervoso com a oscilação dos meus investimentos. A verdade é que já estou acostumado com nossa tradição macunaímica.

Se eu deixasse um texto pronto para usar cada vez que o Brasil passa por uma crise severa, nunca mais precisaria escrever. Mensalão, Lava Jato, Impeachment, mala de dinheiro, tentativa de homicídio, descaso com problemas sérios, nepotismo, abismo fiscal… É triste, mas o Brasil insiste em ser essa bagunça.

Dizem que o Brasil não é para amadores. Eu já acho o contrário, o Brasil é apenas para amadores. Profissionais não competem sem regras claras e em terrenos esburacados. Nossos ativos não são baratos à toa, no jogo do dinheiro, estamos na lanterna da segunda divisão.

Mas isso não quer dizer que precisamos nos desesperar, ou que devemos desistir da nobre arte de investir. Muito pelo contrário.

Para começar, momentos de grande desvalorização são uma excelente oportunidade de comprar excelentes empresas a preços de banana. E quando falo “excelentes” eu não estou exagerando, pois para ter sucesso no Brasil é preciso ser excepcional. É por isso que é fundamental sempre manter alguma grana em caixa, para aproveitar essas “promoções”.

Além disso, essas dores de barriga do mercado nos ajudam a revisar o nosso portfólio e melhorar a nossa técnica, afinal, “mar calmo nunca fez bom marinheiro”.

Por exemplo, se você está muito angustiado, sem conseguir dormir, é possível que tenha se empolgado e assumido um nível de risco incompatível com o seu perfil. Se for o caso, você precisará ajustar a sua carteira, tendo em vista os seus objetivos e a sua tolerância a risco. Será uma ótima oportunidade para avaliar a sua diversificação.

A esta altura nem preciso dizer que diversificação é fundamental né? Nessa confusão, se você tivesse um pouquinho de dólar na carteira, já amenizava bastante a porrada nos demais ativos.

A boa notícia é que nunca foi tão fácil montar uma carteira diversificada no Brasil. No passado, as escolhas do investidor se limitavam a títulos públicos e ações, ou melhor, pouquíssimas ações.

Hoje, o investidor pode investir no Brasil e no exterior, em diversas classes de ativos, que vão de ações a títulos de países desenvolvidos, de criptomoedas a cannabis, de empresas de tecnologia nos EUA e na China a metais preciosos e raros… Não faltam opções.

E se você não investe no exterior ainda, eu recomendo fortemente. Não faz sentido manter todo o seu suado dinheiro investido em um único país, o qual representa menos de 3% da economia global, ainda que seja o país onde você nasceu e vive. É um risco – felizmente, hoje em dia – absolutamente desnecessário.

Ah, mas tem o seguinte, se você está entupido de ações brasileiras e outros ativos de risco, você realmente precisa rever a sua alocação, mas não faça isso de forma açodada. Estabeleça a alocação ideal e vá ajustando a carteira aos poucos. Se decidir vender tudo de vez, no olho do furacão, é possível que realize prejuízos que serão muito difíceis de recuperar. Keep calm!

Vamos torcer para as coisas melhorarem e para o país voltar ao menos à mediocridade. Pela minha experiência, tenho para mim que o Brasil nem tem vocação para ser uma Suíça nem para ser uma Venezuela. Infelizmente, parece que há alguma uma força poderosa que nos empurra para a mediocridade.

Entender isso pode ser de grande valia para os seus investimentos. Quando o país está à beira do precipício e os ativos ficam muito baratos, geram boas oportunidades de compra; quando as coisas estão indo bem e a empolgação está grande, o exagero predomina e os ativos sobem acima do razoável, indicando a hora de vender. Fique atento, pois esse ciclo tem se repetido teimosamente por aqui.

Aproveite o momento para refinar sua técnica e melhorar ainda mais como investidor; para aprender valiosas lições enquanto a manada se desespera. Não é a primeira grande crise enfrentada pelo país e duvido seriamente que será a última. Só nos resta sobreviver e se adaptar, tentando prosperar em meio ao caos, afinal, como bons brasileiros, não desistimos nunca. 

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