Diversificação é Inteligência

Fonte: FinDocs

Em finanças, poucos assuntos são tão complexos e tão debatidos quanto a diversificação. Entre casos e estratégias, entre quantidade de ativos e tamanho das posições – seja você novato ou não – você se pergunta com frequência o quanto deve diversificar a sua carteira.

Como diversificar sem pulverizar? Você jamais será capaz de responder isso sem entender a diversificação em sua essência.

Natureza Prepotente

Em qualquer processo de desenvolvimento intelectual, os primeiros passos são sempre perigosos e arriscados. O motivo é simples: nós sempre desprezamos aquilo que desconhecemos. Mesmo que haja algum grau de temor, a dificuldade em estabelecer a magnitude dos riscos envolvidos nos faz atribuir menor relevância a assuntos de extrema importância durante todo o desenvolvimento.

Não valorizamos um seguro automotivo até termos um problema sério no trânsito. Não valorizamos uma dieta equilibrada até um problema de saúde crônico aparecer. Não valorizamos a diversificação até que metade do patrimônio seja perdido com danos permanentes.

A ignorância nos faz simplificar e reduzir o potencial de ameaças que são, até então, desconhecidas. Para os novatos, o grau de sensatez e de vigilância dos mais experientes sempre parece exagero. 

O nosso estado natural é a ignorância. E essa talvez seja uma das observações mais importantes desse texto. Quanto menos sabemos, maior a probabilidade de pensarmos que está tudo sob controle. Por outro lado, quanto mais você estuda e se aproxima da fronteira do conhecimento – quanto mais próximo de se tornar um expert você chegar – mais você valorizará a segurança, a cautela e as precauções. Você perceberá que na verdade, não sabe nada.

Os mestres são cautelosos. Eles controlam os próprios instintos com uma bela dose de racionalidade. Aos olhos dos inexperientes, os mestres podem parecer cuidadosos demais.

E quer saber? São eles quem mais valorizam a diversificação, a proteção e o controle de risco. Eles desafiam o status quo e se protegem de si mesmos. Eles sabem que a ignorância é o maior risco para o acúmulo patrimonial.

A realidade é complexa. Embora tenhamos uma inteligência surpreendente, somos insignificantes perto de tudo que temos a descobrir.

A Famigerada Clarividência

Apesar de ser uma obviedade, isso é sempre contestado por quem é mal intencionado: nós não somos clarividentes. Não importa quanto estudemos, sempre haverá variáveis imprevisíveis e incontroláveis.

Os modelos de análise podem apontar caminhos, estabelecer tendências e facilitar a criação de hipóteses, mas nunca – nunca! – prever o futuro.

É por isso que a diversificação de uma carteira de investimentos é tão necessária. Por mais que você conheça uma empresa, um título ou uma estratégia de investimento, você sempre terá a maior parte da realidade contra você – obscura, imprevisível e, em muitos casos, fugaz.

Em sua essência, a diversificação deve te proteger de tudo aquilo que você não é capaz de controlar. Ela te dá cobertura por não ter ciência da realidade em sua plenitude.

Em linhas técnicas, a diversificação otimiza a sua rentabilidade e reduz o risco geral da carteira.

Os Riscos

Independente do tamanho do patrimônio do investidor, decisões financeiras têm uma ligação íntima e indissociável com risco. Gerenciar dinheiro é gerenciar risco.

Títulos públicos, fundos de investimento, ações, fundos imobiliários, criptomoedas, imóveis, negócios próprios e ouro – todos carregam riscos em comum e riscos específicos.A diversificação evita que os riscos específicos atinjam uma magnitude capaz de te destruir.

Nesse contexto, é normal que as dúvidas técnicas surjam aos montes. E não somente para quem está começando – a diversificação é um tema de alta complexidade, digna de demandar equipes robustas para assegurar o nível ideal de diversificação para portfólios maiores.

Quantidade de ativos; tamanho das posições; diversificação por classes, por setor e por geografia; sizing para controle de volatilidade. São inúmeros pontos técnicos que você dominará conforme amadurecer como investidor.

Contudo, existe uma linha lógica que separa as carteiras inteligentes das carteiras fracassadas. Vamos em frente.

A Pulverização

Você já se deparou com esse conceito por aí, ele é abordado de forma um tanto superficial: a pulverização ocorre quando o número de ativos é tão grande que aproxima o retorno do investidor dos índices de mercado. Superficial, mas correto. Via de regra, a carteira pulverizada tem um problema muito maior que o excesso de ativos: a falta de estratégia.

Nos dias de hoje, as carteiras nessa condição absorvem ativos de inúmeras indicações diferentes, quase sempre com decisões carregadas pelo viés de confirmação. Em outras palavras, o investidor compra tudo aquilo que ele ouve falar bem, ou que ele encontra uma mínima razão para abraçar o mais rápido possível. Sem qualquer critério.

Pulverização está mais relacionada com a falta de estratégia do que com a quantidade de ativos. O investidor pulverizado não tem tese. Quando tem, é rasa, sem argumentos e sem base lógica forte.

Pulverização é ignorância.

A Diversificação

Quando os ativos são selecionados a partir de estudos individuais, com teses fortes e uma estratégia alinhada ao perfil do investidor, a carteira será considerada diversificada.

Nesse caso, o investidor é capaz de justificar suas escolhas com profundidade. Ele também poderá confrontar suas escolhas com as demais opções que foram deixadas de lado.

Investidores diversificados costumam demonstrar uma inteligência emocional singular. Eles são capazes de seguir suas estratégias à risca, sempre com frieza e imparcialidade. 

O viés de confirmação raramente é responsável por alguma decisão para esses. Eles questionam, investigam e sempre tomam decisões pautadas em informações e estudos inteligentes. Diversificação gera segurança e consistência. Gera rentabilidade sem jamais comprometer a integridade do capital.

Diversificação é inteligência.

Proteja-se de Si Mesmo

Tenha em mente que a sua carteira sempre acompanhará o seu desenvolvimento. Por incrível que pareça, é possível extrair muitas informações do seu perfil e do seu comportamento somente avaliando os ativos que estão em sua carteira. Ela é um reflexo de quem você é.

Entenda de uma vez por todas que o nosso estado natural é a ignorância. O mundo muda, e muda muito. O tempo todo. Nesse sentido, poucas coisas são tão nocivas quanto o excesso de confiança.

Mais importante que se proteger dos diversos riscos do mercado financeiro, é se proteger da sua falsa sensação de segurança.

Confiança é um atributo importante e altamente benéfico, porém, em doses inadequadas, pode te levar a colocar tudo a perder.

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