Mudança na Petrobrás x Jogo de Futebol

Por Danilo Cesar / CFP – Analista de Investimento Sênior na Néos Previdência Complementar

PUBLICADO COM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR

Se você ficou surpreso com a mudança na Petrobrás, é porque você nunca pegou o baba!

Você viu toda essa confusão envolvendo a Petrobrás nos últimos dias? Ficou surpreso? Eu não fiquei nem um pouco, mas isso me fez lembrar da minha infância…

Quando eu era moleque, todas as minhas tardes eram consumidas da mesma forma: jogando futebol – depois do dever de casa, é claro. Não que eu tenha aprendido, mas isso não vem ao caso. 

Onde eu cresci, jogar futebol era mais que paixão, era obrigação; quem não tinha jeito nenhum, se virava no gol. Quando dava 4h da tarde, “pegar o baba” (como chamamos a “jogar uma pelada” aqui em Salvador) era sagrado.

Jogávamos no barro, no asfalto, debaixo de sol, na chuva…, não tinha tempo ruim. O único problema era a bola. Como o bairro era pobre, nem todo mundo conseguia comprar a “redonda” e nem sempre a vaquinha resolvia. Então improvisávamos com bola de papel, bola de meia, bola de borracha…

Mas frequentemente alguém aparecia com uma bola nova, uma vez que esse era o presente pedido por 99,99% dos aniversariantes. Era uma alegria só!

Todo mundo bajulava o dono da bola, cuja moral era elevada a status de celebridade na comunidade. Ele tinha prioridade na seleção do time, jogava primeiro, recebia entradas mais leves, a galera aliviava nos xingamentos…

As vezes dávamos sorte de o dono da bola calhar de ser um “boleiro”, um cara safo, que manjava do negócio, jogava bem, aguentava o tranco e não enchia o saco inventando um monte de regras novas. 

Mas na maior parte das vezes, por ironia do destino, o dono da bola era algum “perna-de-pau”, chato e mimado, que inventava um monte de regras absurdas, reclamava de tudo e, o que é pior, não aguentava perder.

Por mais que a galera “segurasse a onda” e tivesse paciência, em algum momento o danado gritava: “acabou o baba, a bola é minha”.

Por mais esperado que fosse, a revolta era geral. A galera ficava p**@ e xingava o danado até a primeira geração – de vez em quando rolava até briga, isto é, os caras “saiam na mão”, como dizemos por aqui.

A galera então limava o infeliz, que ficava com a preciosa bola, mas era excluído de toda vida social da galera, ou “escorado”, como dizíamos naquela época.

Percebendo a “cagada”, o infeliz voltava atrás, dizia um “foi mal” pra galera, liberava a bola, procurava menos frescura na hora de jogar e o baba sagrado então seguia em paz por vários dias, até o momento em que o danado do dono desse outro chilique e repetisse a maldita frase: “acabou o baba, a bola é minha”.

Então o processo “político” recomeçava.

Por mais absurdo que possa parecer, para mim, o caso da Petrobrás funciona da mesma forma. O governo – por mais austero e liberal que possa parecer – é o “dono da bola”, quer dizer, da Petrobrás. Na maior parte do tempo ele vai tentar agradar a galera, isto é, o mercado, pois ele sabe que não conseguirá “bater o baba” sozinho.

Contudo, de vez em quando, quando alguma coisa o deixar chateado ou preocupado (como uma possível greve dos caminhoneiros agora), ele vai gritar bem alto: “acabou o baba, a bola é minha”.

A galera, por sua vez, vai ficar “P da vida”, xingar ele muito e “escorá-lo”, quer dizer, vai vender as ações da Petrobrás, fazendo o preço despencar, prometendo apaixonadamente nunca mais “jogar” com o governo.

Daí o governo vai fazer uma mea-culpa, pedir desculpas, dizer que não foi bem assim, que daqui para frente será diferente e fazer alguns mimos para a galera (o mercado) – recolocando a bola, quer dizer, a Petrobrás – em jogo.

Daí o baba vai prosseguir em paz, isto é, a galera (mercado) vai voltar a jogar com o dono da bola (governo) e vai elogiar a qualidade da “pelota” (Petrobrás) todo santo dia, até que o dono da bola (governo) dê outro chilique e resolva gritar novamente “acabou o baba, a bola é minha”.

Então o processo conciliatório recomeçará.

Enquanto a “bola” for do governo será assim. Esperar outra coisa é tolice e, principalmente, perda de tempo e dinheiro. A boa notícia é que, se você investe em ações, você pode usar essa novela a seu favor. Toda vez que o dono levar a bola embora, as ações da Petrobrás tendem a despencar, abrindo uma boa oportunidade de compra.

Por outro lado, quando o dono da bola fizer as pazes com a galera, o baba estiver “comendo no centro” e o caso de amor no auge, as ações da Petrobrás tendem a estar elevadas, indicando um bom momento para sair, antes que o dono da bola acabe com o baba.

Resumindo: compre quando “acabar o baba” e venda quando o baba estiver bombando.

Mas se você não quiser se estressar com esse vai e vem, deixe para jogar o baba quando a bola for de um “boleiro” (ou seja, de um craque) ou então for comprada através de uma vaquinha.

No mercado, a forma de fazer isso é evitar investir em ações de empresas controladas pelo governo; não faltam boas empresas privadas com controladores (donos da bola) que respeitam os acionistas (galera), assim como empresas de controle pulverizado (quando a bola é comprada por uma vaquinha).

Mas se você decidir jogar com a bola do “perna de pau” (governo), esteja preparado, pois o baba pode acabar a qualquer momento, recomeçando a eterna picuinha. 

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