Qualquer um consegue manipular o mercado?

Fonte: E-investidor

O que não entrou tanto no debate é: as pessoas têm uma profunda desconfiança em relação ao mercado de ações e tudo que ele representa. Essa lição foi escancarada pela raiva que permeou posts no Reddit e fios de conversa no Twitter de quem comprou ações da GameStop com multidões vibrando por eles.

O que os investidores do Reddit fizeram, mais do que qualquer coisa, foi demonstrar nos termos mais categóricos que eles conseguem manipular o mercado da maneira que grande parte das pessoas acredita que os fundos de hedge e os investidores abastados fazem diariamente. Ao fazê-lo, eles expuseram a mentira de que o mercado de ações opera em condições igualitárias.

Mas e agora? Se alguma coisa boa pode resultar disso além das histórias inspiradoras de alguns pequenos investidores que lucraram às custas dos fundos de hedge, situação que pode se reverter do fim dessa história, é a necessidade de uma conversa verdadeira a respeito de como criar um mercado mais justo, que ninguém seja capaz de manipular e que ofereça as mesmas oportunidades de lucro para todos.

Isso ficou claro para mim a partir de um usuário do Twitter que respondeu a algo que eu tinha dito a respeito de tentar proteger alguns dos investidores menos sofisticados no mercado, que compraram ações da GameStop e podem ter prejuízos que não serão capazes de cobrir. “Proteger investidores é degradante. Esses investidores não se importam se perderem tudo, estão doando em nome da causa.”

Isso pode ser verdade ou não, mas, se vamos falar em alguma “causa” aqui, apresento aqui um punhado de ideias de regras para ajudar a criar condições de igualdade nesse campo. Pense nelas como um ponto de partida para o debate, e não como a defesa de alguma posição. Cada uma tem prós e contras — e, provavelmente, algumas consequências não intencionais.

Uma taxa de transação para operadores de alta frequência.

Um dos argumentos mais repetidos pelos críticos de Wall Street diz que os operadores de alta frequência — que compram e vendem a cada milissegundo — desvirtuaram completamente a ideia de investimento. Esses operadores frequentemente tiram vantagem de discrepâncias de preços usando algoritmos de uma maneira que nenhum pequeno investidor tem oportunidade de fazer, gerando grandes ganhos em firmas como Citadel e Virtu Financial. Além de captar US$ 80 bilhões por ano, uma taxa de transação de 0,1% sobre o valor das operações também reduziria significativamente as operações de alta frequência, por torná-las menos lucrativas. Projetos de lei para essa taxação foram repetidamente propostos e derrubados no Congresso.

Contras: os proponentes das operações de alta frequência afirmam que elas criam mais competitividade e, por isso, tornam o mercado mais eficiente para todos os participantes, incluindo os pequenos investidores.

Divulgação de posições a descoberto.

Grandes fundos de hedge têm de divulgar suas posições “cobertas” quando ultrapassam o limiar de 5% das ações de uma determinada empresa. Essa divulgação não é exigida para posições a descoberto. De nenhuma maneira. Mas, não deveria ser? Se nós, enquanto sociedade, acreditamos que a transparência é importante para entendermos quem está comprando ações, pareceria lógico que também quiséssemos saber quem está apostando contra essas operações. Algumas pessoas acreditam que as próprias vendas a descoberto deveriam ser proibidas, mas outras acreditam que elas realizam uma importante função de vigilância ao incentivar acionistas a analisar as empresas em relação a fraudes, embustes ou simplesmente má administração.

Contras: se vendedores a descoberto fossem forçados a divulgar suas apostas, ficaria difícil para que construíssem posições significativas. Vender ações a descoberto pode levar tempo e construir uma posição poderia fazer delas alvo de investidores capazes de colocá-las em short squeeze, aumentando seu preço de uma maneira similar ao que vimos acontecer na semana passada.

Acabar com reuniões confidenciais entre empresas e grandes investidores.

Transmitir informações importantes que não são reveladas para todos os investidores é ilegal. Mas grandes investidores viajam constantemente pelo país para visitar CEOs e questioná-los a respeito de seus negócios. Pequenos investidores não são convidados para essas reuniões. Enquanto a maioria dos executivos é cuidadosa em não transmitir notícias de ganhos futuros ou alguma fusão, é difícil acreditar que grandes investidores gastariam tempo e dinheiro para realizar essas reuniões se não acreditassem que fazer isso lhes garante uma vantagem que não conseguiriam de outra maneira.

Contras: as empresas afirmam frequentemente querer ouvir seus maiores investidores para obter uma avaliação de sua atuação. Alguns grandes investidores também afirmam que, dada a quantidade de dinheiro em jogo, especialmente em um compromisso de investimento a longo prazo, querem conhecer pessoalmente a equipe administrativa.

Reintroduzir a Regra Buffet.

Em 2012, o presidente Barack Obama propôs uma taxação chamada de Regra Buffett, que cobraria um mínimo de 30% de tributação média de qualquer um que lucrasse mais de US$ 1 milhão. A taxa foi batizada em referência ao investidor bilionário Warren Buffett, que afirmou que não deveria ser possível taxá-lo com um índice inferior ao de sua secretária. Isso significava que nenhuma brecha — ganhos de capital, juros escriturados ou manobras de impostos patrimoniais — poderia ser usada pelos mais ricos para diminuir sua contribuição. Ainda que a Buffett Rule não mude as oportunidades no mercado, ela pode ajudar a fomentar um senso de equidade no sistema, o que é, em parte, o coração do fenômeno da GameStop. As pessoas querem acreditar que todos estão pagando sua parte igualmente.

Contras: não há nada negativo em criar mais confiança.

(Por Andrew Ross Sorkin/The New York Times / Tradução de Augusto Calil)

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