Fundos se destacam por velocidade de recuperação

Fonte: Valor Econômico

Num ano tão atípico como 2020, há casos entre os multimercados brasileiros mais representativos do IHFA, da Anbima, que chamam a atenção pelas perdas bastante limitadas e pela velocidade da recuperação.

O fundo multiestratégia da Neo, por exemplo, levou apenas dois dias para zerar aquilo que foi a sua maior perda histórica, de 3,85%, entre 17 e 23 de março, enquanto o Gap Multiportfólio e o Gap Absoluto precisaram de 17 dias.

O fato de operar com estratégias de valor relativo na maior parte da carteira amorteceu as perdas da Neo, diz o gestor Mario Schalc. No baque de março, 70% das posições estavam voltadas para o cenário de curto prazo. O maior prejuízo veio dos 30% fora desse bloco, em operações ligadas a taxas de juros.

“Mesmo passando por um evento completamente inesperado – a gente não tinha condição de antever a pandemia -, e perdendo um dinheiro importante em algum momento, não houve a necessidade de mexer nas posições para se adaptar ao novo cenário”, afirma Schalc. Os ajustes feitos para manter o portfólio enquadrado aos limites de risco foram marginais em relação ao resultado total.

As métricas de risco ajudaram a atravessar pela tempestade. Schalc explica que o sistema monitora o pior resultado da carteira atual em janelas de 21 dias, olhando pelo retrovisor. “No nosso sistema ainda existia a influência da greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, e os movimentos referentes ao período eleitoral.”

Os multimercados da Gap iniciaram seu período mais crítico em janeiro, antes de a pandemia chegar ao mundo ocidental, com o fundo do poço em 20 de março, numa queda restrita a 8,9%. Como as posições de hedge funcionaram e o “drawdown” ficou dentro das especificações do sistema de risco, não foi necessário liquidar nenhuma posição, afirma o sócio-gestor Renato Junqueira.

Ele conta que a casa começou 2020 muito otimista com renda variável no Brasil e tinha posição vendida na bolsa americana, o que acabou atrapalhando a performance dos fundos.

Quando caiu a ficha de que a covid-19 seria um fenômeno global, a decisão foi encurtar o horizonte de investimento. A parcela em ações locais foi trocada por ativos nos EUA, enquanto nas estratégias de juros passou a buscar países onde havia espaço para afrouxar a política monetária. “A gente conseguiu explorar bem Brasil, México e Chile, que foram responsáveis por boa parte do resultado do primeiro semestre”, diz Junqueira.

Quem sabe o que fazer nas crises acaba se destacando no mundo dos multimercados, diz Felipe Bevilacqua, diretor de investimentos da Levante Advice. “O ano de 2020 foi bom para provar muita coisa e mostrou que a gestão de um multimercado é muito mais complicada do que a de um fundo de ações. Se antes, se fazia um fundo macro com duas ou três pessoas, para operar fechamento de curva de juros no Brasil e ótimo, agora não dá mais para ser assim”, diz. Com o ciclo de corte de juros locais se acentuando entre 2018 e 2020, mais difícil ficou para um fundo macro ganhar dinheiro, acrescenta.

Ele cita que muita casa sofreu porque não tinha time de ações e que fazer a gestão integrada a um multimercado não é algo trivial. “A gente viu melhor desempenho dos fundos grandes tradicionais, melhor estruturados.”

Quando a Selic estava na casa dos 14% ao ano, a escolha do fundo aguentava um pouco mais de desaforo. Agora, com a taxa básica em 2%, o investidor já começa o ano “devendo” a taxa de administração para o gestor, afirma Bevilacqua.

Bruno Benassi, analista de fundos da Levante Advice, sugere olhar o histórico de desempenho dos fundos em janelas superiores a 12 meses, e também nos momentos de crise para avaliar se uma eventual boa performance coincidiu com períodos de mercado para cima. Esse é um conselho útil principalmente num momento em que novas gestoras são criadas a um ritmo acelerado. “Tem muita gente saindo de banco grande e montando a sua própria asset. Já vimos muitos casos que foram para a gestão independente e não conseguiram performar.”

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