IBOV vs IFIX: o que está acontecendo?

Fonte: Nord Research

As últimas semanas foram marcadas por um forte movimento de valorização no Ibovespa, acompanhado do fortalecimento do real e queda do juro longo. Mas por que o IFIX não vem acompanhando o movimento?

Você tem acompanhado o rally do Ibovespa desde o início de novembro?

Apesar do susto que a Bolsa levou ontem (7) com a notícia de que o relatório da PEC Emergencial previa medidas de flexibilização do teto de gastos, ruído já desmentido em Brasília, o IBOV praticamente não para de subir desde novembro. 

Já são incríveis 21 por cento de valorização desde o início daquele mês. A quase 114 mil pontos, o IBOV está a pouco menos de 5 por cento de atingir a sua máxima histórica, como se nada demais tivesse acontecido nesse ínterim. Já parou para pensar nisso?

Se o ano não fosse 2020, seria difícil acreditar nesse movimento…

Evolução do Ibovespa nos últimos 12 meses

Gráfico mostra evolução do Ibovespa nos últimos 12 meses.

Fonte: Bloomberg

Mas ele é uma realidade e, apesar de ser o principal destaque, o IBOV não está desacompanhado neste recente rally

De novembro para cá, o Real se valorizou frente ao Dólar como há muito tempo não víamos, e o juro longo também voltou a cair. Ou seja, o kit veio completo.

Quem ficou para trás mesmo foi o IFIX, principal índice do mercado de FIIs, ao andar praticamente de lado nesse meio tempo, o que tem chamado a atenção dos investidores.

Evolução do IFIX nos últimos 12 meses

Gráfico mostra a evolução do IFIX nos últimos 12 meses.

Fonte: Bloomberg

Afinal, via de regra, o IFIX e o IBOV seguem uma dinâmica muito parecida… 

É verdade que cada um dos índices caminha à sua maneira ao longo do tempo. O IBOV, por exemplo, costuma ir, voltar e até dar cambalhotas enquanto caminha.

Já o IFIX costuma ser um pouco mais comportado – ou ao menos costumava ser antes da possibilidade de ficarmos short em FIIs. De qualquer forma, o destino de suas caminhadas costuma ser o mesmo, exceto pelo momento atual.

IFIX (laranja) e Ibovespa (Branco)

Gráfico mostra IFIX (laranja) e Ibovespa (Branco).

Fonte: Bloomberg

O que poderia justificar o recente descolamento entre os dois? 

Perguntas como esta são sempre difíceis de se responder, afinal, o mercado é o mercado e nem sempre há uma racionalidade por trás de seus movimentos. 

O primeiro e mais importante fator para o atual descolamento entre os dois índices tem a ver com a recente retomada do fluxo de capital estrangeiro. 

O fim do conturbado processo eleitoral nos EUA e a proximidade do início das distribuições de vacinas contra a Covid-19 em diversos países pelo mundo reduziram significativamente as incertezas dos mercados globais nas últimas semanas.  

O cenário global mais claro tem levado os investidores estrangeiros a retirarem o dinheiro da segurança (leia-se: mercados desenvolvidos) em busca de maiores retornos em mercados mais arriscados, como é o caso dos emergentes. 

Em vista disso, em novembro, vimos o ingresso líquido de 33,3 bilhões de reais de capital estrangeiro na B3, maior entrada de recursos em um único mês desde janeiro de 1996. 

Fluxo estrangeiro na Bolsa desde janeiro

Gráfico mostra fluxo estrangeiro na Bolsa desde janeiro.

Fonte: B3, Bloomberg e Fênix Team.

Acontece que esse fluxo chegou ao país para ser alocado em ações, causando a forte valorização do IBOV no último mês.

O mercado de fundos imobiliários, por outro lado, conta com uma participação ínfima de não residentes – entre 3 e 4 por cento das posições em custódia –, logo, ele não surfou esse movimento.

Mas então isso significa que os gringos não gostam dos nossos FIIs? Não! O dinheiro não costuma ter preconceitos.

O problema do mercado de FIIs é que seu tamanho ainda não é suficiente para acomodar imensos fluxos de dinheiro, o que limita a entrada de capital estrangeiro e institucional local.  

A boa notícia é que a liquidez no mercado de FIIs vem crescendo exponencialmente nos últimos anos.

Isso somado à sua modernização a partir da criação de novos instrumentos que ajudam a aumentar a sua eficiência, como ETFs de índices e possibilidade de ficar short em cotas de fundos, vêm contribuindo para que daqui a alguns anos esse mercado tenha maior participação desses investidores.

Um fator importante que pode estar ancorando a evolução do IFIX no momento é também a grande quantidade de emissões pela qual o mercado de FIIs está passando. 

Além dos efeitos do juro baixo – que por si só já costumam aquecer o mercado e aumentar a quantidade de novas ofertas – finais de ano são tradicionalmente períodos em que há um maior volume de emissões. 

Ao absorver grande parte do dinheiro do mercado, as ofertas acabam reduzindo a pressão de alta sobre os preços das cotas dos fundos negociadas na Bolsa, o que acaba por ser refletido no desempenho do seu principal índice. 

Por fim, mas não menos importante, a composição entre o IBOV e o IFIX também é um fator importante a ser levado em conta para entendermos a atual dinâmica dos dois índices. 

O IBOV conta com uma grande exposição a empresas que foram beneficiadas pelo fluxo de capital estrangeiro, como o caso da Vale, Petrobras e os grandes bancos, o que contribuiu para a sua boa performance no último mês. 

Já o IFIX, por outro lado, conta com um peso importante de segmentos que ainda estão para trás na recuperação da crise, como o caso dos escritórios e shopping centers, o que acaba contribuindo para o seu desempenho mais tímido. 

Distribuição setorial do IFIX

Fonte: B3 e BB Gestão de Recursos

O IBOV está à frente neste momento, mas isso significa que o IFIX ficará para trás daqui em diante? Eu penso que não!

Se o Brasil fizer a sua lição de casa, poderemos surfar a onda global de juros baixos durante um bom tempo, o que beneficiaria diretamente os fundos imobiliários. 

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