Explicações para a subida da Bolsa desafiam a lógica

Por Hudson Bessa / Professor e sócio da HB Escola de Negócios

PUBLICADO COM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR

Não há dúvida que o desempenho das empresas e por consequência da Bolsa são resultado de um conjunto de fatores. Entram na conta fatores macroeconômicos, políticos, setoriais e específicos de cada empresa. Tudo isso envolto por um véu de expectativas. Mas a forma como o mercado reage e tenta explicar o sobe e desce da Bolsa é, no mínimo, interessante. Algumas desafiam a lógica.

Vamos pegar o dia de hoje, 01/09, como exemplo. Notícias do dia: PIB do 2º trimestre tem queda de 9,7%, bateu-se o martelo na extensão do auxílio emergencial em mais 3 parcelas de R$ 300,00 (apesar da péssima situação fiscal) e a relação da dívida líquida atingiu 60% do PIB (pela primeira vez desde 2003). 

A despeito de todas estas informações a Bolsa sobe mais de 2%, a princípio impulsionada pela notícia de que o Governo enviará a reforma administrativa até quinta-feira. Pode contar a favor, também, a valorização do mercado americano, embora o europeu não avalize muita animação. 

Alguns especialistas foram ouvidos para a matéria do Valor Econômico “Ibovespa esquece tombo do PIB e sobe de olho no quadro fiscal”. Alguns gestores ouvidos alegam que o resultado do PIB é passado e já estava no preço. Verdade. Apontam ainda que os fundamentos de algumas empresas e setores são bons. Aqui cabe a pergunta, estamos falando do índice que reflete o mercado acionário brasileiro ou de ações específicas?

São coisas distintas. Falar que uma empresa vai bem a despeito da Bolsa só quer dizer que ela provavelmente tem riscos específicos relevantes, mais que os sistemáticos. Aliás, um dos exemplos citados é a Vale que teria bons fundamentos e por isto está bombando no dia 01/09. Mas ela caiu ontem. Será que os fundamentos mudaram de ontem para hoje?

Outros citam como fatores determinantes a promessa do governo em encaminhar a reforma administrativa e o provável alívio fiscal que ela trará. Mais uma vez parece que a amnésia se instalou.

A reforma da previdência levou meses e acabou saindo com um volume equivalente a 2/3 do estimado. Já a administrativa, as notícias dão conta que está pronta, ou quase, desde o ano passado e só vale para os novos. Não traz alívio fiscal de curto prazo. Ou seja, tramitação longa, muita negociação e perdas pelo caminho.

Ah, os sinais mostram que o PG está mais forte no cargo. Mas só para lembrar, isso não tem relação com os fundamentos das empresas. Em verdade, o mercado navega num mar de incertezas, ao sabor das crenças e dos medos e se alimenta disto para manter o sobe e desce. Ninguém sabe o que vai acontecer no Brasil e no mundo. A grande injeção de capital promovida pelos BC´s e os polpudos pacotes fiscais aliviaram a situação, mas criam muitas dúvidas sobre o futuro. A macroeconomia enfrenta muitas situações inéditas. 

Por ora, parece que os especialistas estão mais preocupados em encontrar explicações para seu otimismo legítimo ou profissional. Afinal, o momento está bom para vender ações na Bolsa.

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